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Na hora do almoço, ao abrir a marmita, Cícero vê um ovo frito em cima de um bife.
Um bife a cavalo.
Um ovo frito no dorso do bife.
Galopando no extenso arrozal.
Diferentemente dos demais dias, há faca e garfo no saco plástico.
O ovo está do jeito que ele gosta.
Com a gema mole.
Como a gema não estourou? Como a fina película não se rompeu? O ônibus freou tantas vezes, o trem chacoalhou tantas vezes e a película da gema aguentou firme e forte. Um verdadeiro milagre. Cícero pensa na esposa, nas filhas e chora. As lágrimas atravessam a avenida principal do rosto e recolhem a angústia da vida inteira. Está emocionado.
Cícero pega o garfo e o afunda bem devagar na gema. Ela estoura e tinge o arroz de amarelo. Ele afunda mais o garfo até alcançar o bife. Sente que chegou, que o bife está bem preso. A mão disponível pega a faca, que imediatamente corta o bife. Macio, macio demais.
Ele fecha os olhos e leva a primeira garfada até a boca. Mastiga, mastiga, com desmedido prazer. Tem a impressão de estar comendo bolo de padaria, de estar assoprando a vela, de ver as filhas acordadas cantando parabéns para ele, de ouvir Tereza lhe dizendo para fazer um pedido ao cortar a primeira fatia…

